Terras raras ganham espaço no debate eleitoral; entenda por que Goiás é estratégico para a exploração do minério no Brasil
Mineração Serra Verde é considerada a única operação fora da Ásia a produzir, em escala, os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras Divul...
Mineração Serra Verde é considerada a única operação fora da Ásia a produzir, em escala, os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras Divulgação/Serra Verde Na discussão sobre minerais críticos, as terras raras ganham espaço no debate eleitoral e são citadas nos planos de governo dos dois candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Nesse cenário, Goiás se destaca como um estado estratégico para a exploração do minério no país. 🔎 As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis. ✅ Clique aqui e siga o perfil do g1 Goiás no WhatsApp Localizada em Minaçu, na região norte do estado, a Mineração Serra Verde é atualmente a única empresa fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro principais minerais para ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Em abril deste ano, a USA Rare Earth, que tem participação do governo norte-americano, anunciou a compra da mina Pela Ema por US$ 2,8 bilhões, movimento que reacendeu o debate sobre o interesse dos Estados Unidos nos minerais do Brasil. De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, ficando atrás apenas da China. O país asiático é responsável por mais de 60% da produção global e quase 90% do refino desses elementos. Por que Goiás é considerado estratégico para a exploração de terras raras no Brasil? Terras raras: mineradora de Goiás conquista destaque mundial na mineração Com a Serra Verde, Goiás conquistou os olhares do mundo e se consolidou como um polo estratégico para a exploração de terras raras. A relevância da região tem atraído parcerias estratégicas e expressivos aportes internacionais. Em entrevista ao g1, a professora Estela Leal, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Goiás (FCT/UFG), explicou que Goiás é considerado estratégico para a exploração de terras raras no Brasil devido aos diversos depósitos e projetos de pesquisa mineral desenvolvidos no estado. “Goiás já tem uma posição estratégica. Sem contar também outros depósitos que estão em fase de implementação, como é o caso de Nova Roma, da mineradora Aclara, e outros projetos também, que incluem, por exemplo, o depósito de Catalão”, pontuou. O Projeto Carina, da multinacional Aclara Resources, tem como objetivo implementar uma fábrica no município onde os elementos são extraídos, em Nova Roma. Conforme divulgado pelo Governo de Goiás, o Projeto Carina possui um investimento de cerca de R$ 2,8 bilhões, sendo R$ 30 milhões apenas na instalação de Aparecida de Goiânia. A Aclara pretende processar aproximadamente 250 toneladas de terras raras. Além disso, Estela destacou que o estado possui uma posição estratégica no contexto de exploração de minerais críticos estratégicos como um todo, não somente quando falamos de terras raras. “Minerais críticos estratégicos também incluem o cobre, o níquel, o ouro. Goiás também é um dos líderes nacionais na pesquisa e na produção desses commodities”, disse. No campo legislativo, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) aprovou a Política Estadual de Mineração Sustentável de Terras Raras, regulamentada por decreto que estruturou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos (AMIC-GO) e a criação de Zonas Especiais de Mineração. O marco estabelece incentivos fiscais como o diferimento do ICMS para empreendimentos credenciados que realizarem a industrialização e o beneficiamento em solo goiano. O objetivo é evitar que o estado atue apenas como exportador de matéria-prima bruta, estimulando a fabricação local de ímãs permanentes de alta performance, motores elétricos e baterias. No aspecto socioeconômico, as projeções governamentais estimam a criação de até 12 mil empregos diretos em um período de cinco a dez anos. Essas vagas envolvem uma cadeia multidisciplinar que contempla desde geólogos e engenheiros de minas até especialistas em química, operação industrial e logística internacional. LEIA TAMBÉM: Terras raras: saiba como cidade goiana saiu da exploração de amianto para o centro da disputa internacional de minérios Mina de terras raras vendida a empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões em Goiás: o que muda na prática? ECONOMIA: Terras raras em Goiás: exploração pode gerar mais de 12 mil empregos diretos Importância das terras raras no debate político Mina de terras raras em Minaçu (GO) é alvo de acordo bilionário entre empresa brasileira e americana; operação prevê expansão da produção e fornecimento por 15 anos Divulgação/Serra Verde Segundo a pesquisadora, as terras raras não ganharam destaque apenas no debate eleitoral, pois são um assunto de extrema importância no contexto geopolítico. “Historicamente, toda a parte da cadeia produtiva de terras raras e de boa parte de minerais críticos estratégicos também se concentram na Ásia, mais especificamente na China. A China domina a cadeia, ou seja, domina a produção e o processamento global das terras raras. Goiás acaba sendo uma alternativa estratégica, principalmente para o Ocidente”, afirmou. Estela explicou que o domínio chinês sobre a produção e o processamento desses minerais está relacionado à disputa geopolítica entre as principais potências mundiais. De acordo com ela, a China pretende manter sua posição nesse mercado, enquanto outros países buscam diversificar as fontes de fornecimento de minerais críticos e estratégicos. Nesse cenário, Goiás ganha importância por suas reservas e pelo potencial de atrair investimentos. A professora destacou que o debate eleitoral envolve diferentes propostas para o aproveitamento desses recursos, como a atração de investimentos internacionais, a ampliação da participação do Estado e a industrialização da produção para agregar valor aos minerais extraídos. Para a geóloga, as terras raras representam uma oportunidade de transformar o potencial geológico de Goiás e do Brasil em desenvolvimento industrial, tecnológico e econômico, para além da atividade extrativista. Desafios para o desenvolvimento da cadeia produtiva Um dos principais desafios, segundo a professora, é garantir que o aproveitamento das reservas não se limite à extração e à exportação do concentrado mineral. Embora facilitar a extração primária seja importante, ela ressaltou que o maior desafio é ampliar as etapas de processamento e industrialização dentro do país. “Se a gente só exportar o concentrado mineral, a gente vai estar capturando uma fração do valor econômico da cadeia”, explicou. A pesquisadora pontuou que a cadeia produtiva envolve diferentes etapas, desde a extração mineral e o processamento até a separação química dos elementos, a produção de metais e ligas metálicas e, por fim, a fabricação de componentes tecnológicos. Entre as aplicações das terras raras estão a produção de ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos ligados à transição energética, além de tecnologias voltadas à defesa nacional. Estela também apontou a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa científica, especialmente em áreas como a separação química dos elementos terras raras, além do desenvolvimento de tecnologias para as etapas posteriores da cadeia produtiva. A professora ressaltou ainda que as propostas para o setor precisam considerar o desenvolvimento industrial e a reindustrialização do Brasil, para que o país consiga aproveitar melhor suas reservas e ampliar sua participação nas etapas de maior valor agregado da cadeia. “Eu acho que é isso que vai determinar se o país vai ser cada vez mais protagonista da economia atual”, concluiu. O que dizem os candidatos à presidência sobre as terras raras? Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) na última propaganda eleitoral para a TV nesta sexta-feira (23) Reprodução/TV Globo Em 16 de setembro, o presidente Lula sancionou o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que prevê a criação de um fundo garantidor para estimular investimentos no setor e institui um crédito tributário de R$ 5 bilhões para incentivar o processamento e a transformação de minerais em território nacional. O texto também cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE). Durante o discurso, Lula afirmou que, antes de tudo, é preciso vencer os “adversários internos”. “Como sempre, os traidores da pátria, mais uma vez, caíram de joelhos diante dos Estados Unidos. Prometeram entregar nossos minerais críticos e terras raras em estado bruto, a preço de banana, como aconteceu no passado com nosso minério de ferro”, destacou. Lula ressaltou ainda que a soberania do Brasil não está à venda. “A riqueza do Brasil tem um único dono: o povo brasileiro”, completou. No debate da TV Bandeirantes antes do segundo turno, Lula e Flávio protagonizaram momentos de embate. O petista questionou o candidato do PL sobre as terras raras e perguntou se o grupo do senador pretende entregar terras raras e minerais críticos aos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro classificou a pergunta como “fake news” e “mentira”. Em março deste ano, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), ainda como pré-candidato à Presidência da República, Flávio defendeu que o Brasil é “a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. Propostas de Flávio Bolsonaro Em seu plano de governo, o candidato cita as seguintes propostas: Agregação de valor local: Defende que o Brasil deve conectar suas reservas minerais à sua energia limpa para processá-las internamente, em vez de exportar apenas a "pedra bruta" e importar o produto acabado Papel do Estado e licenciamento: Estabelece que o Estado atuará como regulador e coordenador, baseado em seis pilares (marco regulatório estável, licenciamento ágil/técnico, atração de capital estrangeiro sem viés ideológico, verticalização, governança e transparência). Propõe acelerar o licenciamento ambiental e o processo de concessão de direitos minerários Destaque regional: Destaca o Nordeste por possuir reservas de terras raras indispensáveis para a economia, articulando essa riqueza com a produção de energia solar e eólica Propostas de Lula Em seu plano de governo, o candidato cita as seguintes propostas: Política específica nacional: Propõe o desenvolvimento de uma política voltada especialmente a minerais críticos e terras raras para organizar suas cadeias produtivas, diferenciar os usos tecnológicos e evitar a simples exportação de matérias-primas estratégicas Mapeamento e soberania: Prevê uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, visando inserir o Brasil de maneira soberana nas cadeias globais de valor Polo industrial no Nordeste: Propõe aproveitar a abundância de energia limpa (eólica e solar) do Nordeste para atrair indústrias eletrointensivas focadas, entre outros setores, no processamento de minerais críticos Mineradora Serra Verde explora quatro elementos de terras raras em Minaçu. Arte/g1 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias sobre Goiás